Os computadores já participam de praticamente todas as etapas do desenvolvimento de um automóvel. Simulações ajudam a projetar motores, suspensões, carroceria e até componentes extremamente complexos. Mas existe uma peça que ainda depende bastante da percepção humana: o pneu.
 
Isso acontece porque um pneu não precisa apenas cumprir números de desempenho. Ele também precisa transmitir informações ao motorista, responder de determinada maneira aos comandos e apresentar comportamento previsível em diferentes situações.
 
É justamente nesse ponto que entra o piloto de testes, responsável por colocar os pneus à prova e analisar características que nenhum computador consegue traduzir completamente.
 
Um pneu pode ter várias personalidades
 
Em um fabricante como a Pirelli, uma mesma medida pode oferecer diferentes tipos de pneus. Um composto pode priorizar conforto e resistência, enquanto outro busca desempenho e aderência.
 
Quando uma montadora começa a desenvolver um novo veículo, ela apresenta aos fabricantes de pneus uma lista de objetivos. São estabelecidos parâmetros de peso, aderência, resistência ao rolamento, ruído e comportamento acústico, por exemplo.
 
O desafio está em encontrar o equilíbrio entre todas essas características. Melhorar uma delas pode significar comprometer outra.
 
A simulação reduziu os testes físicos
 
Antigamente, encontrar essa combinação exigia a produção de dezenas de lotes de pneus e incontáveis horas de testes físicos.
 
Hoje, a utilização de simuladores e modelos virtuais acelerou bastante o desenvolvimento. Informações obtidas em projetos anteriores permitem criar virtualmente novos compostos e estruturas antes mesmo de fabricar um protótipo.
 
O resultado é uma redução significativa no número de ciclos físicos necessários para homologar um pneu. Ainda assim, a etapa prática continua indispensável.
 
Isso acontece porque os computadores conseguem medir e reproduzir uma série de variáveis, mas ainda têm dificuldade para transformar em dados aquilo que um motorista sente ao volante.
 
O computador mede, o piloto interpreta
 
O pneu funciona como uma extensão do sistema de suspensão do carro. Ele interage diretamente com molas, amortecedores e com o próprio asfalto.
 
Durante o desenvolvimento, os engenheiros precisam avaliar características como aderência, resistência ao rolamento, ruído, conforto, frenagem e comportamento em diferentes condições de piso.
 
Parte dessas informações pode ser obtida por sensores e equipamentos de telemetria. Outra parte depende da percepção do piloto.
 
É aí que surge uma diferença importante: dois pneus podem apresentar números semelhantes em determinados testes, mas transmitir sensações completamente diferentes para quem está dirigindo.
 
“Ouvir” as vozes do pneu
 
O trabalho do piloto de testes é justamente transformar essas sensações em informações úteis para os engenheiros.
 
Se há décadas um pneu era avaliado principalmente por resultados como tempo de volta e desempenho no seco ou no molhado, hoje também é necessário observar ruído, conforto, resposta da direção, frenagem, tolerância à aquaplanagem e comportamento progressivo no limite de aderência.
 
Essas características são como as “vozes do pneu” que o piloto precisa aprender a identificar.
 
O trabalho de campo combina medições instrumentadas e análises sensoriais. Sensores registram dados objetivos, enquanto o piloto avalia aquilo que acontece entre o carro, o pneu e o asfalto.
 
Um teste pode mudar completamente o desenvolvimento
 
Em uma situação prática de desenvolvimento, o piloto pode começar utilizando um jogo de pneus de referência para entender como o carro se comporta.
 
Depois, os protótipos são testados nas mesmas condições. O piloto compara as respostas e relata diferenças de comportamento à equipe de engenharia.
 
Foi justamente esse tipo de avaliação que mostrou como uma mudança aparentemente pequena pode alterar completamente a dinâmica do veículo.
 
Durante um teste com um Volkswagen Virtus, por exemplo, diferentes jogos de pneus foram avaliados em condições específicas, incluindo uma pista molhada artificialmente. A partir das sensações ao volante, foi possível perceber diferenças de aderência, resposta da direção e comportamento nas curvas.
 
O piloto também ajuda a definir o pneu
 
Conforme os testes avançam, o piloto passa a identificar os limites daquele conjunto de pneus.
 
Uma determinada configuração pode fazer o carro sair mais de frente, enquanto outra pode facilitar a movimentação da traseira. Também podem surgir diferenças na maneira como o veículo reage durante uma frenagem ou ao passar por uma lâmina de água.
 
Essas informações são levadas aos engenheiros da fabricante de pneus.
 
A partir daí, podem ser alterados elementos como composto da borracha, desenho dos sulcos, estrutura interna, banda de rodagem ou distribuição de materiais.
 
Depois de algumas semanas, um novo conjunto pode chegar à pista para ser novamente avaliado.
 
A evolução não é apenas matemática
 
Em um dos testes descritos pela reportagem, a mudança para um novo jogo de pneus trouxe uma evolução perceptível no comportamento do carro. A sensação de maior controle permitiu ao piloto explorar melhor os limites de aderência e, como consequência, melhorar o tempo de volta.
 
Esse tipo de resultado mostra por que o desenvolvimento não pode depender apenas de números.
 
Um computador pode indicar que determinado pneu apresenta mais aderência ou menor resistência ao rolamento. Mas é o piloto quem consegue perceber como essa característica se manifesta na prática, especialmente quando o veículo está próximo do limite.
 
Por que a inteligência artificial ainda não substitui o piloto?
 
A tecnologia já é capaz de simular uma quantidade enorme de cenários e reduzir drasticamente o tempo necessário para desenvolver novos pneus.
 
Mas ainda existe uma variável difícil de transformar em algoritmo: a percepção humana.
 
O piloto não apenas mede se o carro consegue fazer uma curva mais rápido. Ele percebe se a direção é progressiva, se o pneu avisa quando está chegando ao limite, se a traseira reage de maneira previsível ou se o veículo transmite confiança.
 
Essas informações ajudam a definir a personalidade do pneu e, consequentemente, podem influenciar diretamente o comportamento final do automóvel.
 
Por isso, mesmo com computadores cada vez mais avançados, o desenvolvimento de um pneu continua sendo uma combinação de simulação, engenharia e experiência humana. A máquina consegue antecipar grande parte do comportamento, mas ainda é o piloto quem precisa entrar na pista e descobrir aquilo que os números não conseguem contar.