Carros elétricos estão longe de ser uma invenção recente. Em 1918, quando os motores a combustão ainda apresentavam dificuldades de partida, exigiam manutenção constante e não eram tão práticos, modelos movidos a bateria já circulavam pelas ruas dos Estados Unidos. Um exemplo é o Detroit Electric Model 75B Brougham, que acaba de ganhar uma nova chance de voltar a rodar graças à instalação de baterias modernas.
 
O exemplar foi levado a leilão pela Mecum durante a Monterey Car Week, nos Estados Unidos. Apesar de manter o motor elétrico original, as baterias centenárias precisaram ser substituídas para devolver ao veículo condições de funcionamento.
 
Um elétrico criado há mais de 100 anos
 
A história da Detroit Electric começou ainda no século XIX. A fabricante surgiu a partir da Anderson Carriage Company, fundada em 1884, e apresentou seu primeiro carro movido a bateria em 1907.
 
Na época, a escolha pela eletrificação não tinha relação com preocupações ambientais. Os carros elétricos eram considerados uma alternativa mais conveniente aos veículos a combustão, que exigiam manivelas pesadas para dar partida, produziam cheiro forte de combustível e demandavam lubrificação manual frequente.
 
 
A facilidade de condução também ajudou a marca a direcionar parte de seu marketing ao público feminino, que poderia utilizar o automóvel sem precisar lidar com as dificuldades mecânicas dos primeiros carros a gasolina.
 
A estratégia chegou a conquistar clientes bastante conhecidos. Henry Ford e Henry Joy, então presidente da Packard, chegaram a comprar modelos da Detroit Electric para suas esposas.
 
Baterias modernas para um carro centenário
 
 
O grande desafio para restaurar um veículo elétrico tão antigo está justamente nas baterias. Diferentemente de um motor a combustão, que pode ser reconstruído com usinagem e componentes novos, uma bateria com mais de 100 anos não possui uma recuperação viável.
 
Por isso, o Detroit Electric Model 75B recebeu um conjunto moderno. A origem exata das baterias utilizadas no exemplar não foi divulgada, mas a adaptação de módulos provenientes de veículos elétricos mais recentes, como o Nissan Leaf, ou de híbridos danificados, já é uma prática utilizada nesse tipo de restauração.
 
A solução, porém, cria um dilema entre originalidade e funcionalidade. Para um colecionador interessado em manter o carro exatamente como saiu da fábrica, a alteração mecânica pode diminuir seu valor em concursos de restauração. Por outro lado, sem a troca das baterias, o veículo permaneceria praticamente impossibilitado de circular.
 
Desempenho era modesto até para a época
 
Quando novo, o Detroit Electric Model 75B tinha autonomia de aproximadamente 128 km e velocidade máxima limitada a apenas 32 km/h.
 
Os números de desempenho atuais, após a instalação das baterias modernas, não foram divulgados pela Mecum.
 
A autonomia, inclusive, já era uma preocupação para os proprietários de carros no começo do século XX. Naquele período, a rede de postos de combustível ainda era bastante limitada, fazendo com que até os motoristas de carros a gasolina precisassem planejar seus deslocamentos.
 
Interior parecia uma sala de visitas
 
O Model 75B Brougham também chama atenção pelo interior pouco convencional. O motorista conduzia o carro utilizando um manche direcional, posicionado de maneira que permitia dirigir voltado para os passageiros.
 
O acabamento buscava reproduzir o ambiente de uma sala de visitas sofisticada. O modelo chegava até a ter vasos de flores integrados ao interior, um recurso bastante incomum para um automóvel — e que surgiria novamente em carros muitas décadas depois.
 
A Detroit Electric continuou produzindo essa configuração sob encomenda até 1939. A marca acabou perdendo espaço para os veículos a combustão à medida que Ford e General Motors ampliaram a produção em massa e a infraestrutura de abastecimento de gasolina se espalhou.
 
Quanto vale um elétrico de 1918?
 
A expectativa era que o Detroit Electric alcançasse um valor elevado no leilão da Mecum. A maior oferta chegou a US$ 100 mil, equivalente a aproximadamente R$ 521 mil na cotação utilizada pela publicação.
 
O valor, entretanto, não atingiu a reserva estabelecida pelo vendedor e, por isso, o carro não foi vendido no leilão.
 
Mais de um século depois de sua fabricação, o Model 75B mostra que a eletrificação não é uma tendência criada recentemente. O que mudou radicalmente foi a tecnologia: enquanto aquele carro precisava de grandes baterias para alcançar velocidades modestas, os elétricos atuais utilizam baterias compactas, motores muito mais potentes e sistemas eletrônicos capazes de controlar praticamente todos os aspectos da condução.